OHNE - O HOMEM NÃO EXISTE

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Sobre a natureza sintetizada deste texto1

A inexistência da substância masculina e o resíduo do gozo

1. Abertura: A estranha satisfação do sintoma

A prática clínica contemporânea frequentemente se depara com impasses que resistem à lógica do bem-estar biológico. Darian Leader ilustra essa tensão através do caso de um homem cuja vida sexual é pautada por uma repetição penosa: ele busca obsessivamente aventuras com mulheres casadas, apesar de reconhecer que o padrão lhe traz apenas sofrimento. Notavelmente, sua satisfação sexual depende de uma estimulação anal específica, acompanhada por um prurido intenso que ele coça até ferir a pele. O sujeito atribui essa dinâmica à influência de uma “mãe devoradora”, mas o ato de coçar sugere algo mais profundo: uma tentativa de “remover” ou arranhar a presença intrusiva desse Outro de seu próprio corpo.

Talvez seja o esforço de manter esses frágeis limites corporais que, com muita frequência, resulta na violência. Os meninos têm medos assustadores de lesões numa parte do corpo e de explodirem e perderem as vísceras. Temem a invasão por um pênis masculino e poderíamos até afirmar que a sexualidade masculina é uma estrutura complexa, cujo propósito principal é constituir uma defesa contra esses pavores iniciais. Os medos em si podem derivar do manejo do corpo da criança pelos pais e de suas atitudes em relação a ele; do medo de retaliação pela raiva dessa mãe ou desse pai; ou de formas arcaicas de identificação com a mãe, também ela tida como passível de penetração. Quando o protagonista do filme Ted explica a seu ursinho falante que está planejando algo realmente muito especial para a namorada, o ursinho presume que isso signifique a penetração anal, como se isso estivesse no horizonte de todos os outros atos sexuais. LEADER, Darian – Alguma vez é só sexo?

No campo da psicanálise, tornou-se frequente o uso do termo “gozo” (jouissance) como um rótulo descritivo preguiçoso. Segundo Leader, esse uso costumeiro funciona mais para encerrar o questionamento clínico do que para abri-lo, mascarando a falta de uma teoria robusta sobre a articulação entre dor e prazer. Frequentemente, ignora-se a mecânica precisa dessa “estranha satisfação”: se o prazer ocorre sobre a dor, se é um prazer que assume o lugar da dor ou se a dor é a própria sequela necessária do prazer. A satisfação encontrada no sofrimento desafia a ideia de um “homem” como um sujeito biológico estável, revelando que a subjetividade se constitui em torno de um núcleo de tensão que o organismo, por si só, não consegue pacificar.

2. O pressuposto da unidade virtual e o estádio do espelho

A noção de “homem” — e a própria ideia de um “Eu” coeso — é construída sobre uma base de prematuridade biológica e desamparo motor. Jacques Lacan teorizou que o sujeito busca superar esse caos fisiológico inicial identificando-se com uma “unidade virtual alienada” fora de si mesmo. Essa imagem de inteireza, capturada no espelho, é uma antecipação de uma coordenação motora que o bebê ainda não atingiu. Portanto, a identidade masculina não é um dado da natureza, mas uma ficção de domínio destinada a mascarar a fragmentação original.

Esta é uma leitura interpretativa, não uma afirmação direta das fontes, que sugere que a virilidade opera como uma ortopedia psíquica para um corpo essencialmente desamparado. Os dados empíricos reforçam que essa fundação é traumática. Pesquisas de Beulah Amsterdam demonstram que a reação ao espelho está longe de ser puramente jubilosa; a partir de um ano de idade, aproximadamente 90% dos sujeitos apresentam comportamentos de retraimento, angústia ou choro ao confrontar seu reflexo. O “Eu” não nasce do reconhecimento, mas de um mal-estar profundo diante de uma imagem que promete uma soberania que o sujeito não possui.

3. A crítica à substância e o hibridismo da libido

No fundo da questão lacaniana penso encontrar a perplexidade do homem diante de uma outra forma de gozar. E, ainda mais no fundo, está a inabilidade dele de conceber um gozo que não seja representado a olhos nus. Na superfície, porém, está simplesmente a fascinação com o diferente. Como Simone de Beauvoir já nos ensinou há tempos, para o pensamento ocidental masculino, “a mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem, e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro”. DINIZ, Ligia Gonçalvez – O homem nao existe

Frequentemente, o gozo é tratado como uma “substância primeva” ou um campo energético unificado, uma simplificação que remete ao que Erik Erikson criticou como a busca por uma essência que a estrutura psíquica apenas tentaria conter. Contrapondo-se a essa visão de substância única, a perspectiva freudiana enfatiza uma satisfação que emerge estritamente do conflito e do recalcamento. Contudo, Freud possuía um “ponto cego” fundamental: ele relutava em aceitar a fusão intrínseca entre libido e agressão, tentando manter correntes de amor e ódio como entidades separadas.

Karin Stephen corrige essa lacuna ao propor que a libido é, em sua gênese, uma “mistura letal” de forças opostas. Para Stephen, a frustração transforma zonas de prazer em zonas de desprazer, onde a estimulação é simultaneamente desejada e temida como um insulto ou perigo. Essa fusão é historicamente visível nos blasons do início do período moderno. Estes poemas, ao isolarem partes do corpo feminino para glorificá-las, operavam uma pulverização literária da mulher; o desejo de tocar o mamilo transmutava-se rapidamente no impulso de aniquilar o objeto. Esta é uma leitura interpretativa, não uma afirmação direta das fontes, que aponta para o fato de que a libido masculina não é uma força vital pura, mas uma amálgama de destrutividade e busca de prazer.

4. A implicação da técnica e o esvaziamento do sujeito

Na ausência de uma “substância masculina” real, a cultura contemporânea tenta preencher esse vazio através da técnica e da performance. Manuais como As Mulheres Primeiro, de Ian Kerner, e o catálogo posicional do Kama Sutra oferecem uma resposta mecânica ao desamparo subjetivo. Kerner foca na eficácia clitoridiana como o “evento principal”, transformando o corpo em um conjunto de engrenagens a serem otimizadas. Se o “homem biológico” não existe enquanto entidade psíquica estável, a cultura oferece a “tirania do orgasmo” e a eficiência técnica como substitutos para a existência subjetiva.

Isso explicaria por que a postura machista sempre parece tão teatral e absurda, como se não houvesse nela nada de natural e a dimensão artificial possuísse altíssima densidade. Homens situados no ápice do poder investido pela sociedade pagam a trabalhadoras sexuais, com extraordinária frequência, para que elas os penetrem analmente com uma cinta peniana. É como se a dimensão teatral da masculinidade coalescesse aqui com certa imagem da feminilidade — ou, simplesmente, com uma inversão do poder — e o falo se revelasse um objeto cenográfico artificial. Curiosamente, (…) parece ter havido um declínio nos últimos vinte anos, num reflexo, muito provavelmente, do desgaste contínuo de seu poder pessoal, em virtude dos protocolos de transparência, da atenção contínua da mídia e do escrutínio baseado na internet. Leader Darian – Alguma vez e so sexo

Entretanto, essa abordagem corre o risco de mecanizar um vazio que é estrutural. A transformação do prazer em um produto de consumo e do corpo em uma máquina de performance gera novas ansiedades, onde o sujeito se torna um espectador de sua própria competência. Em oposição a esse ideal de alta performance, Erik Erikson discute a “identidade negativa”. O sujeito frequentemente se identifica com elementos abjetos ou rejeitados pelo Outro por percebê-los como “mais reais” do que os papéis sociais higienizados. Como no exemplo de Erikson sobre a mãe que só reconhece o filho através da memória de um irmão falecido, o sujeito pode buscar o “fundo do poço” — a negatividade máxima — como a única fundação sólida para uma subjetividade que recusa a ficção de domínio oferecida pelos manuais.

5. O Outro como hipoteca sobre o corpo

O gozo, quando despojado de sua aura mística, pode ser definido como a “hipoteca do Outro sobre o sujeito”. Conforme as reflexões de Heinz Lichtenstein e Darian Leader, o corpo do indivíduo é frequentemente encravado pelas necessidades e desejos inconscientes de figuras parentais.

“O gozo designaria a hipoteca do Outro sobre o sujeito, no próprio processo em que ele o abole ou não o reconhece como sujeito.” (Leader, D.)

Nessa perspectiva, o homem deixa de ser um agente autônomo para se tornar um instrumento de satisfação para o Outro. O sujeito não é o “dono” de seu próprio prazer; ele apenas administra uma propriedade que está hipotecada. O sintoma — como o prurido anal mencionado inicialmente — é o resíduo dessa dívida. Ao coçar-se até a dor, o homem não busca apenas alívio, mas tenta desesperadamente liquidar essa hipoteca, arrancando de si a marca do desejo do Outro que o constitui como objeto.

6. Fechamento: A persistência do resto não codificado

Apesar das promessas da neurociência, da sex tech e da sexologia técnica em mapear e codificar cada centímetro do prazer humano, permanece um resíduo que não se deixa capturar. A “estranha satisfação” encontrada na raiva em suspenso, na busca pelo abjeto ou na falha deliberada revela que o gozo é o que resta quando todas as categorias universais de “homem” falham.

A subjetividade não se sustenta na ilusão de uma substância masculina plena, mas na persistência desse resto não codificado. A única fundação possível para o sujeito não é a conquista de uma performance ideal, mas o reconhecimento de que seu corpo está irremediavelmente atravessado por uma falta que nenhuma técnica pode preencher. Onde o manual de performance promete o êxito, a psicanálise encontra a raiva em suspenso e a satisfação paradoxal de um sujeito que só se sente real naquilo que escapa ao controle.



  1. Esse texto foi produzido com notebooklm, com prompt específico para evitar afirmações fabricadas e para imitar o meu estilo de escrita. Foi revisado antes de ser publicado. Prompt pode ser encontrado aqui: COMO-SINTETIZO-MEUS-POSTS ↩︎