O que aprendi fazendo entregas de bike em Cuiabá por alguns meses


Havia uma chuva forte, o tipo que Cuiabá produz em janeiro como se estivesse acertando contas com todos os seis meses sem chuva no meio do ano. A ebike apagou – sistema de proteção contra umidade – e eu precisei fazer a entrega pedalando uma bicicleta de quase trinta quilos, molhado, com a comida de outra pessoa nas costas e um relógio que não era meu marcando o tempo. O motivo? Ganhar dinheiro, oras.

Tenho 41 anos, estou em Cuiabá há vinte. Possuo formação em filosofia e geografia, e sempre andei de bicicleta, mas desde o início do ano adquiri uma bicicleta elétrica (mas não qualquer uma, foi uma e-vibe explorer da caloi) que vale mais de dez mil reais. Minha primeira do tipo. Já tenho mais de mil e trezentos quilômetros com ela, sendo que 99 por cento desse uso foi com o aplicativo de motivação. Mesmo assim, nunca fiz míseros cem reais em um único dia.

Esse momento, pedalando na chuva, condensou tudo o que eu precisava entender sobre esse trabalho. O risco é meu, a pressa é deles, e o alimento – a subsistência do corpo e a alegria do espírito – circula pela cidade carregado por alguém que o sistema prefere não ver.

O que aprendi, afinal, é sobre valor, mas não é sobre dinheiro. É sobre tempo, poder, corpo e cidade.


É o tempo dos trabalhadores que tem valor crucial para os capitalistas, e é por isso que eles precisam desesperadamente dessa décima segunda hora. A luta para controlar o tempo do trabalhador está na origem do lucro, que é exatamente o que a teoria da mais-valia de Marx postula. (...) O que, então, é socialmente necessário nas temporalidades do trabalho? Os capitalistas não só precisam controlar o processo de trabalho, o produto e o tempo do trabalhador, como também precisam se esforçar para controlar a própria natureza social da temporalidade.

A Companion to Marx's Capital - David Harvey

A promessa da gig economy é liberdade: você trabalha quando quer, quanto der, no ritmo que desejar. Isso é sedutor para quem não quer lidar com cronogramas ou horários rígidos. E é exatamente aí que mora a armadilha.

O iFood não te pergunta onde você esteve quando ficou um mês sem logar. Ele simplesmente espera. Mas essa aparente indiferença esconde uma assimetria estrutural: enquanto você pedala com risco real de acidente, a plataforma cobra taxas simultaneamente dos restaurantes, dos clientes e dos entregadores. Três fontes de receita. Um único corpo exposto na rua.

Quando a demanda sobe – nos dias de chuva, no Carnaval, nas noites em que ninguém quer sair – o app aumenta o bônus, até dobra. Não porque se importa com você, mas porque precisa de você, afinal, é quando está mais perigoso estar na rua. O risco climático é transferido para o corpo do entregador enquanto a plataforma captura o aumento de demanda dos clientes que, por causa do mau tempo, pedem mais. É uma operação elegante: eles vendem conforto e terceirizam o desconforto.

Adicionando a ofensa à injúria: o iFood lançou mês passado a Mega Entrega Premiada, distribuindo mais de R$ 1 milhão em prêmios por sorteio. Para participar: dez entregas semanais, acumulando “números da sorte”. O prêmio maior – R$ 300 mil, para um único ganhador – exigia quarenta entregas por número gerado. É uma caça-níquel disfarçado. Isso oferecido para uma população que já se encontra nas malhas das bets e dos tigrinhos. Enquanto isso, os executivos da empresa fazem lobby no Congresso contra o aumento da taxa-base de entrega. A lógica é precisa: pagar melhor todos os dias é custo fixo; distribuir um prêmio uma vez é marketing.

A captura de valor ocorre quando você obtém seus valores de alguma fonte externa e deixa que eles o dominem sem adaptá-los.

The Score - C Thi Nguyen

Um filósofo chamado C Thi Nguyen discute um tema chamado captura de valor em um livro não traduzido para o português chamado The Score. É ele quem denuncia como valores internalizados e pessoais acabam sendo instrumentalizados por forças externas. Seja o tesão de dirigir, ou de pedalar, ou de cozinhar – tudo pode ser levado cedo ou tarde pela mesma força. Um podcast com ele (em inglês), muito bom, pode ser acessado no youtube.


A violência, assim como o medo, não apenas incidiu sobre as formas de organização social, como também impactou na reestruturação física das cidades, “gerando novas formas de segregação espacial e discriminação social: os enclaves fortificados”. (...) Eles atraem aqueles que temem a heterogeneidade social dos bairros urbanos e preferem abandoná-los para os pobres, os marginais, os sem-teto. Privatização, cercamentos, policiamento e técnicas de distanciamento criam um outro tipo de espaço público: fragmentado, articulado em torno de separações rígidas e segurança sofisticada, no qual a desigualdade é um valor estruturante.

Guerra dos lugares (Raquel Rolnik)

Pedalar em Cuiabá há duas décadas me ensinou sobre o esporte, sobre a arte vai, de pedalar em uma cidade que é desenhada exclusivamente para carros. Aprendi sobre meus limites e mesmo sobre os limites do ciclismo urbano. O aplicativo, no entanto, me deu outra coisa ainda: acesso.

Entrei em condomínios fechados que eu nunca seria convidado a entrar em outras circunstâncias. Vi quadras de tênis e piscinas e jovens bem alimentados e mansões sem muros separando uma da outra, vivendo despreocupados. Entrar lá para entregar um sanduíche que fosse, sempre implica em um chá de cadeira na entrada, documento na mão, olhando para uma câmera, inscrevendo minha identidade mais uma vez, no banco de dados de um sistema de segurança opaco de alguma empresa terceirizada e que nunca irá ser devolvido. Foram nessas entregas que também encontrei, muitas vezes não muito longe, o povo cuiabano das antigas – sentado na calçada à sombra de uma mangueira, com idosos e vizinhos e crianças brincando. O choque entre esses dois mundos, que a formação geográfica descreve em abstrato, aconteceu no meu corpo em tempo real.

As gorjetas ensinam mais do que parecem. Há dois tipos. A gorjeta de cinquenta reais do homem branco em condomínio de elite – já aconteceu uma vez me darem cem reais de gorjeta numa única entrega – quando eu fiquei absolutamente embraçado. Eu, com toda minha empáfia e ojeriza aos ricos parasitas não pensei duas vezes antes de colocar aquela nota no bolso e murmurar um obrigado. Uma gorjeta daquelas paga mais do que seis horas de trabalho, e se isso não te faz ficar perplexo, o que faz? Já a gorjeta de dois ou quatro reais da casa simples é outra coisa: parece-me reconhecimento direto, sem mediação de culpa. “Dou o que posso porque acredito que mereces”. Ambas descrevem o mesmo país visto de ângulos opostos.

O app também revelou uma geografia que os mapas não registram: dark kitchens, comerciantes de alimentos batalhadores, e uma classe de entregadores formada por outsiders de todos os tipos – urbanos, escaldados, estilosos – que são, quase invariavelmente, generosos uns com os outros. Uma solidariedade horizontal que a plataforma não projeta e não lucra (ainda).

Aprendi ainda a usar o GPS como mapa, não como guia: abro, entendo a direção, fecho, pedale. Guardo o caminho no corpo, não na tela. Quem delega integralmente a navegação ao aplicativo ganha rotas novas, mas perde a cidade.


A ideia de que o tempo suprime o espaço provém de uma interpretação delirante do encurtamento das distâncias, com os atuais progressos no uso da velocidade pelas pessoas, coisas e informações. A verdade é que "as informações não atingem todos os lugares [...] há inúmeros filtros intermediários [...] que interferem na natureza da informação [...] podendo descaracterizar o produto" (...). Em realidade, é mínima a parcela das pessoas que, mesmo nos países mais ricos, se beneficiam plenamente dos novos meios de circulação. Mesmo para esses indivíduos privilegiados, não se trata da supressão do espaço: o que se dá é um novo comando da distância. E o espaço não é definido exclusivamente por essa dimensão.

A Natureza do Espaço -- Milton Santos

Fiquei 28 dias sem ligar o app. Não senti abstinência nem culpa – senti ressentimento difuso com um sistema que promete autonomia e entrega precariedade. Mas também sei que tenho a prerrogativa de sentir isso e parar. E que a maioria não tem.

Quinze anos de universidade não me deram muito dinheiro, é verdade . Me deram, porém, a capacidade de saber o que estou fazendo, por que estou fazendo e até quando continuarei. Isso não é sorte, embora a sorte também esteja envolvida. É a diferença entre usar uma plataforma e ser capturado por ela. Para quem não tem essa saída, o app pode ser uma rede de segurança real. Não estou em posição de julgar quem precisa dele. Julgo apenas o que vi por dentro, a partir das minhas próprias lentes.


Se você vai mesmo pedalar para o algoritmo

Se você vai mesmo pedalar para o algoritmo

1. Leve sua própria comida e mantenha a hidratação extrema – A fome é um risco severo, e consumir pequenos lanches a cada 45 a 60 minutos de pedalada é essencial para evitar a exaustão. Além disso, gastar o que você ganha comprando comida na rua destrói o seu lucro real, sendo fundamental levar marmitas preparadas.

2. Use uma bag térmica menor eu uso uma mochila de 30 litros. 80% dos pedidos de bicicleta são de fato lanches (como hambúrgueres e marmitas). Usar uma mochila mais compacta resulta em menos peso morto, melhor aerodinâmica e maior conforto físico para turnos longos. Para os casos de um pedido maior, trago, dobrado, um saco reutilizavel grande. Quando nao estou usando, ele fica dobradinho e guardado.

3. Seja seletivo e cuidado com entregas casadas As entregas casadas adicionam apenas R$ 3 e duplicam a complexidade. A estratégia ideal é priorizar corridas curtas de até 3 ou 4 km, onde a bicicleta é imbatível, e recusar pedidos longos ou que o tirem das áreas de alta demanda.

4. A tensão da bicicleta elétrica: sustentabilidade física vs. financeira – A bicicleta elétrica com assistência no pedal não é um luxo, mas uma necessidade para a sustentabilidade física no médio prazo: a bicicleta elétrica reduz o impacto no corpo em 40% a 50%, transformando as entregas de “fisicamente inviáveis” para “sustentáveis”.

5. Posicione-se estrategicamente em “Zonas Quentes” Se você mora longe de áreas comerciais, não tente trabalhar de casa, pois o algoritmo prioriza quem está fisicamente mais próximo (raio de até 4 km) dos restaurantes. A tática correta é pedalar até os polos gastronômicos (como shoppings e praças de alimentação) com o aplicativo desligado, ligando-o apenas quando chegar ao local. Para maximizar os ganhos, estacione nesses pontos estratégicos durante os horários de pico, que ocorrem tipicamente das 11h às 14h e das 18h às 22h.


Isso quer dizer que o passado não é completamente varrido. A herança material permanece, em proporções diferentes, segundo as civilizações, os países, as regiões. E, sobre esses restos de uma sucessão de elaborações, vai se sobreimpor o novo conjunto de técnicas característico do período atual.
(...)

O que na paisagem atual, representa um tempo do passado, nem sempre é visível como tempo, nem sempre é redutível aos sentidos, mas apenas ao conhecimento. Chamemos rugosidade ao que fica do passado como forma, espaço construído, paisagem, o que resta do processo de supressão, acumulação, superposição, com que as coisas se substituem e acumulam em todos os lugares.(...) Ainda que sem tradução imediata, as rugosidades nos trazem os restos de divisões do trabalho já passadas (...), os restos dos tipos de capital utilizados e suas combinações técnicas e sociais com o trabalho.

A natureza do espaço - Milton Santos

Pedalar, para mim, continua sendo um ato de liberdade. O algoritmo é outra coisa: é a interface contemporânea de um mecanismo muito antigo, que transforma energia vital em receita para empresas de tecnologia. A inovação real do iFood não foi logística. Foi descobrir como fazer o corpo do trabalhador financiar sua própria invisibilidade.

A bicicleta sempre foi o transporte do futuro. Mas quando um aplicativo tenta capturar o valor da pedalada, tudo se resume ao antiquíssimo problema da relação entre tempo e dinheiro. O app não resolve esse problema. Ele o administra – a favor dos acionistas.