como vai a pesquisa – perguntou ninguém


Síntese


Desenvolvimento


Minha pesquisa de mestrado passou por uma porção de transformações, como passou o país no qual ela ocorre e o pesquisador que a produz. Era ainda 2019 quando fiz minha primeiríssima tentativa e produzi o texto nem-so-de-pao-vivera-o-homem onde eu falava de globalização, de cultura, mesmo de agro, e de uma nova concepção do homem. Não fui muito claro sobre minha posição em relação à abordagem pró-empreendedorismo que denunciava como prioridades da universidade. A proposta de pesquisa foi aceita, mas eu não me mantive nela.

Isso se deu em uma época que eu trabalhava no IBGE, após conclusão de mais da metade do concurso em geografia na UFMT (entrara 3 anos antes). Era 2019, a vida parecia estar entrando nos eixos, e eu queria fazer essa pós graduação que era interdisciplinar. Passei nas provas, proficiência e na entrevista. Porém estourou a pandemia.

Eu voltei à carga anos depois, sob a premissa de defender a pesquisa abandonada, inclusive cuidando apenas disso – as disciplinas estavam em sua maioria resolvidas. Mas novos problemas surgiram, contratempos de cunho pessoal, além da pesquisa anteriormente postulada já não parecer possível ou realizável. Eu nunca consegui comprimir a tese na sua proposição única e inequívoca. Ora eu achava que iria viajar para o interior do MT e estudar historia dessas cidades, ora eu achava que ia estudar literatura e buscar novas leituras do homem no contexto desterritorializado.

Fato é que um pouco de tudo isso foi feito, escrito, e estudado. Mas nada se concretizou. Ao mesmo tempo, me interessou teoria feminista, me interessou epistemologias digitais, e, mais importante, me interessou entender o que era essa síndrome de impostor que resistia e mesmo se reforçava ao longo do tempo. Foram sete anos, e muitas idas e voltas antes de eu entender que estava buscando entender a própria autenticidade em sua raiz ontológica.


Como eu poderia resumir minha pesquisa em apenas algumas palavras: a pesquisa se debruça na questão da IA como fenômeno geográfico e social, do texto gerado por IA como fenômeno epistemológico e nos detectores de IA e a crise de autenticidade como fenômeno socio-tecnico. A pesquisa usou de scripts e testes estatísticos para explorar os limites dessa última, e inferiu as consequencias para as demais premissas.

Se os detectores de IA não detectam autoria, mas assinaturas de modelo, o problema da autoria e autencidade permanece aberta. Avalia-se a possibilidade da comprovação mediante prova de trabalho, porém, o pesquisador se volta para sua propria experiencia com chatbots e recria as condicoes que permearam a pesquisa – analisando suas proprias buscas sob a luz das pesquisas recentes sobre propriedades emergentes da relação humano-IA.

A pesquisa conclui que resguardar os devidos papeis de cada disciplina é essencial – e que mesmo a IA só pode ter participação na construção coletiva de conhecimento mediante essa restrição. Para evitar a porosidade dessa mesma tendencia de uso de IA em campos indevidos se propoe reestruturação de programas de pesquisa para tais fins, com rigidez propria da importancia que esses mesmos programas possuem para preservar o conhecimento e fazer humano. Nesse sentido programas de pós graduação como o ECCO estão em posição privilegiada de inibir uso de IA completamente, exceto para tarefas burocráticas.

Notas adicionais


Eu sinto que cada vez mais esse túnel de realidade midiático criado pela popularização do tema IA está se fechando – e que talvez um dia possamos olhar para o passado e rir do tipo de ilusão que importávamos. A tecnologia é um fato inegável, mas ainda estamos lidando com perspectivas mais amplas e transversais que isso tudo supõe.