A Revalorização da Moeda: The Boys e a Dialética do Cinismo - The Boys e a Dialética do Cinismo


Sobre a natureza sintetizada deste texto1

O Poder Absoluto e a Mercantilização da Morte

1. O Cão e o Osso

Diógenes de Sínope, ao ser provocado como um animal durante um banquete, respondeu de forma rigorosa: urinou em todos. O gesto não constituiu um surto de irracionalidade, mas uma operação de desmantelamento existencial. Na genealogia da verdade cínica, conforme Michel Foucault, o Cínico (com “C” maiúsculo) busca a “redução da vida a si mesma”, despojando-a de ornamentos metafísicos para atingir o que é indispensável. The Boys opera essa mesma desarticulação. A série não utiliza a brutalidade gráfica e a escatologia como mero estímulo sensorial, mas como um mecanismo para colocar o corpo e seus dejetos no centro da prática política. A obra funciona, nos termos de Ansgar Allen, como um:

espelho para a sociedade na qual ela aparece.

Ao expor vísceras e fluidos sob a capa de heróis imaculados, a narrativa reencena o escândalo de Diógenes, confrontando a civilidade performática do espectador com a crueza da existência biológica.

2. O Colapso da Paideia e a Megacorporação Vought

A paideia grega constituía um sistema de regulação do poder pela cultura, um protocolo destinado a ritualizar as respostas dos governantes e “bridar sua natureza bruta”. A Vought International, em The Boys, é a encarnação industrial dessa paideia distorcida. Ela é a guardiã do nomisma — termo que designa tanto a moeda quanto a norma social.

Diógenes foi instruído pelo Oráculo de Delfos a parakharattein to nomisma: “desfigurar a moeda” ou “alterar o valor das normas”. A Vought atua como o “falsário” original, emitindo um simulacro de virtude que substitui a essência moral por uma efígie mercantil blindada. A série, contudo, não se limita a obliterar essa moeda; ela busca reestampar o nomisma com uma efígie da verdade, ainda que esta seja repulsiva. A Vought opera o que Allen chama de: oráculo falsificado.

A desconstrução operada pela série revela que a “virtude” vendida pelas corporações é uma contrafação, forçando o público a questionar a validade de toda norma que circule sob o selo do entretenimento de massa.

3. A Soberania Narcisista: Capitão Pátria e o Fantasma de Sêneca

O ideal estoico de soberania, defendido por Sêneca e Epicteto, baseava-se na enkrateia (autodomínio): o controle absoluto do intelecto sobre os apetites. Para Sêneca, a vida soberana possui uma nobreza que “adorna a humanidade” pelo exemplo de disciplina e constância.

A figura do Capitão Pátria (Homelander) representa a inversão catastrófica dessa premissa. Nele, a soberania não é autodomínio, mas um narcisismo psicopático que desintegra a paideia. Ele é governado pelo que o imperador Juliano descreveu como o: monstro de muitas cabeças.

Nesta figura, o corpo não é um templo de disciplina, mas o local onde a falência dos ideais de grandeza ocidentais se torna evidente. Através do Capitão Pátria, o cinismo da série garante que: `o corpo da verdade torna-se visível.

Sua soberania degrada a humanidade em vez de adorná-la, expondo uma psicopatia que subverte a noção de que o poder absoluto estaria vinculado a uma alma superior.

4. A Vingança do Oprimido: Entre a Parrhesia e o Mal-estar Moderno

O grupo de Billy Butcher personifica o “cinismo dos oprimidos” por meio da parrhesia (fala destemida). Originalmente, a parrhesia era um privilégio aristocrático de homens livres. Diógenes a remodelou ao praticá-la a partir do “fundo da hierarquia social” como um “não cidadão empobrecido”. Butcher replica essa manobra: sua fala é transgressiva precisamente porque ele é um homem comum, um “não herói”, insultando deuses corporativos e ferindo seu orgulho.

Nesse processo, a iniciação de Hughie Campbell no grupo de Butcher ecoa o “jogo cínico de humilhação”. Assim como Diógenes forçava seus discípulos a carregar um peixe em público para quebrar os “grilhões sociais da vergonha”, Butcher submete Hughie a rituais de degradação para expurgar sua adesão passiva às normas da Vought.

Resta, porém, o conflito entre o cinismo antigo e o moderno. Peter Sloterdijk define o cinismo contemporâneo (minúsculo) como: `consciência falsa esclarecida.

O sujeito sabe que o sistema é corrupto, mas continua a operar nele. Enquanto o cinismo antigo é militante e busca a aniquilação do status quo, Butcher flutua entre ser um agente da verdade cínica ou um malcontente moderno, paralisado pelo ódio e agindo com a mesma amoralidade que condena.

5. A Estética da Náusea e o Espectador

A violência visceral de The Boys funciona como o ataque de Diógenes ao refinamento cultivado. Nas fontes, o ato de Diógenes de “evacuar em público” ocorria precisamente quando a plateia estava mais “encantada” (enraptured) por sua oratória. De forma análoga, a série insere sua brutalidade mais extrema nos momentos de maior sentimentalismo heróico ou pretenso humanismo corporativo.

O objetivo é romper a hipocrisia de uma audiência que se escandaliza com dejetos, mas ignora a crueldade sistêmica. A série testa se o espectador ainda é capaz de sentir a “náusea” necessária para a crítica ou se ele já se tornou o que Sloterdijk descreve como um:

animal de indústria de acumulação de merda hiperprodutiva.

Se o choque é absorvido apenas como entretenimento lucrativo, o espectador caiu na armadilha do cinismo moderno: ele conhece a podridão do sistema, mas consome o dejeto com prazer estético.

6. Fechamento: O Fardo da Transparência

Diógenes e Nietzsche utilizaram a lanterna em pleno dia para buscar o que é humano entre as convenções em putrefação. The Boys utiliza essa lanterna para iluminar os escombros do gênero heróico, mas o resultado é ambivalente.

A desconstrução ácida da soberania e da virtude pode nos aproximar de uma “outra vida” (Foucault), baseada em uma verdade que não se curva a poderes institucionais, ou pode apenas confirmar nossa cumplicidade jaded com o status quo. A tensão permanece: a série nos liberta pela transparência da brutalidade ou apenas nos torna espectadores mais sofisticados da nossa própria decadência, confirmando que a consciência do desastre não impede sua continuidade.



  1. Esse texto foi produzido com notebooklm, com prompt específico para evitar afirmações fabricadas e para imitar o meu estilo de escrita. Foi revisado antes de ser publicado. Prompt pode ser encontrado aqui: COMO-SINTETIZO-MEUS-POSTS ↩︎