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Manual Voluntário - 2018 (CVV)
Este documento apresenta um resumo detalhado dos principais temas, ideias e fatos contidos nos excertos do “Manual Voluntário - 2018.pdf” do CVV (Centro de Valorização da Vida).
Origens e História do CVV
O CVV, como entidade estruturada, foi fundado em 1962 no Brasil, com a sugestão de Alice Monteiro, resultando na “Campanha de Valorização da Vida”. No entanto, a inspiração para o trabalho de escuta e apoio emocional remonta a 1936, com a iniciativa do Reverendo Chad Varah na Inglaterra.
- Origem Inspiradora (Samaritans): O manual destaca os Samaritans, fundados em 1953 pelo Reverendo Chad Varah, como uma entidade que se projetou na área. “Embora ganhando estrutura naquela ocasião, os Samaritans começaram muito antes, em 1936. Naquele ano, o jovem Varah, recém-formado pela Igreja Anglicana, fora designado para proceder ao ofício fúnebre de uma jovem de 14 anos que se suicidara. Após fazer a encomendação do corpo, voltou para casa e escreveu para um pequeno jornal de Londres, dizendo-se disponível, em sua própria casa, para ‘ouvir seriamente pessoas falarem de assuntos sérios’.”
- Fundação do CVV (Brasil): O manual narra o processo de formação do CVV no Brasil, mencionando a definição do tema “Campanha de Valorização da Vida” em fevereiro de 1962. O primeiro plantão aconteceu em 1º de março de 1962. Inicialmente, foi distribuído um “Rol Expressivo de Pensamentos Positivos”, mas rapidamente a equipe percebeu a inadequação de usá-lo durante os atendimentos.
- Natureza Jurídica: O CVV é uma sociedade civil, sem fins lucrativos, fundada em 1962, com sede em São José dos Campos, SP. É declarada de utilidade pública pelo Decreto Federal nº 73.348, de 20/12/73.
A Pessoa que Pensa em Suicídio
O manual aborda a complexidade do estado emocional de quem considera o suicídio, desmistificando alguns conceitos e destacando a necessidade de escuta empática.
- Sentimentos Presentes: Pessoas que pensam em suicídio frequentemente experimentam:
- Ambivalência: “Ambivalência é a convivência, num mesmo indivíduo, de dois sentimentos em conflito. O estado de ambivalência é um estado de sofrimento.” A pessoa oscila entre o desejo de autodestruição e o instinto de conservação.
- Busca de atenção: A falta de tempo e a distância nas relações sociais contribuem para o isolamento e a necessidade de ser ouvido.
- Desejo de vingança: Em alguns casos, a autodestruição é vista como uma forma de infligir sofrimento a outros.
- Não Julgamento: É fundamental que o voluntário não julgue. “Ao voluntário do CVV não cabe analisar o quanto a pessoa desejava ou não se matar. A atitude de quem deseja ajudar consiste em ouvi-la, procurando perceber e sentindo empaticamente suas angústias. Se procurarmos qualquer explicação antes de ouvi-la, estaremos fazendo um prejulgamento. Quem deseja ajudar jamais deve julgar.”
- Avisos de Intenção: O manual enfatiza que a maioria das pessoas que se suicidam dão avisos. “As pessoas que se matam dão avisos antes de se matar. Avisos diretos ou indiretos, meio camuflados.” O documento menciona que “de cada dez pessoas que se matam, oito deixam avisos.”
- Mitos Sobre o Suicídio: O manual desmistifica crenças populares:
- “A pessoa que pensa em suicídio não se mata”: “De cada 10 pessoas que se mataram ou tentaram, 8 disseram que o fariam.”
- “O suicídio ocorre sempre sem aviso”: “As pessoas que se matam dão sempre muitos avisos. Acontece que os demais não acreditam, não percebem ou não entendem esses avisos.”
- “A pessoa que se mata estava decidida a morrer”: “Ao lado do desejo de fugir da vida existe sempre a poderosa força que impulsiona todos nós para ela. É o chamado instinto de conservação.”
- “Uma pessoa que já pensou em suicídio será sempre uma candidata a ele”: “Qualquer pessoa pode, em certas circunstâncias, pensar em suicídio. Superada a fase, ela [não necessariamente continuará candidata].”
O Voluntário e a Relação de Ajuda
O manual detalha as atitudes e posturas esperadas do voluntário do CVV, focando na essência da Relação de Ajuda.
- O Conceito de Ajuda no CVV: A ajuda oferecida no CVV transcende a simples ação de “fazer algo por”. Envolve compreender e respeitar a pessoa, diferenciando desejos de necessidades, e aceitando que a ajuda oferecida pode não ser a ajuda que o outro busca.
- Atitudes Básicas do Voluntário:Atitude de confiança na pessoa humana: “As pessoas possuem uma força interior que as impele continuamente em busca de uma condição de vida melhor.” Acredita-se na capacidade de autodesenvolvimento, na não maldade essencial, na necessidade de socialização, autonomia, conservação e autorrealização.
- Atitude de aceitação: “Aceitar o Outro é admitir sua existência, é abrir as portas para ele, é perceber que ’ele é assim’.” Aceitar não significa concordar ou aprovar, mas sim considerar a pessoa em sua totalidade existencial. “Atitude de aceitação no CVV significa considerar incondicionalmente a existência do Outro.”
- Atitude de compreensão: “Compreender o Outro é ter a capacidade de perceber o que está ou não está expresso… Significa percebê-lo a partir do ponto de vista dele, colocar-se no lugar dele com seus valores, para perceber seu mundo como possivelmente ele percebe.”
- Observar a si próprio: O autoconhecimento é crucial para o voluntário. “Observar com a ideia de conhecer melhor como nós funcionamos: nossa maneira de pensar, de sentir e agir, nossos preconceitos, nossa maneira de nos relacionarmos com os outros.” Isso permite discernir o que vem de si e o que vem do outro.
- Nivelamento: É a atitude de se colocar “à altura do Outro”. “Quando nos nivelamos, percebemos mais e podemos acolher o Outro com abertura, respeito e compreensão. […] Precisamos vivenciar a compreensão que não somos melhores nem piores do que o Outro.”
- Não Projeção: Aceitar que as pessoas percebem as coisas de maneira diferente. Acreditar que todos veem o mundo como o voluntário vê é um equívoco que dificulta a aproximação genuína.
- Humildade: Reconhecer as próprias limitações, a falta de soluções prontas e a necessidade de aprimoramento contínuo. “Humildade é uma atitude que ocorre quando reconhecemos que não sabemos tudo… que não temos soluções prontas para todos os problemas humanos.”
- Disponibilidade para buscar o autoconhecimento: Essencial para reconhecer e aceitar o que precisa ser transformado em si mesmo e para manter-se vigilante e disponível durante o plantão.
- **A Relação de Ajuda:**É voltada às necessidades da pessoa que busca ajuda, não do voluntário.
- Não é um relacionamento social. O voluntário mantém o sigilo de dados pessoais e não espera nada em troca.
- A pessoa que busca ajuda é livre para rejeitar a ajuda, tomar decisões, afastar-se a qualquer momento e tem a certeza de não ser procurada.
- Oferece-se apoio sem exigências, ameaças ou interferências.
- Sigilo e Confidencialidade: “É compromisso do voluntário o respeito ao sigilo e à confidencialidade das pessoas que usam o serviço do CVV, antes, durante e após sua permanência no voluntariado.” Tudo o que possa identificar a pessoa é confidencial, exceto em situações de risco aos princípios, segurança do trabalho ou de qualquer pessoa, quando pode ser compartilhado excepcionalmente com a coordenação.
- **Atitudes Essenciais durante a Ajuda:**Ser você mesmo, a “forma” como se fala é mais importante que o conteúdo.
- Valorizar o outro e reconhecer seu esforço em cuidar de si mesmo.
- Dar atenção total, focando na vivência emocional mais do que nos fatos.
- Não ter pressa, permitir que a pessoa fale o quanto precisar.
- Tentar ver as coisas pelo ponto de vista do outro, estando “do lado dela”.
- Deixar as respostas virem do outro, evitando apresentar soluções prontas.
- Responder às perguntas com honestidade e sensibilidade, usando-as como formas de comunicação e voltando o foco para a pessoa.
- Atitudes a serem evitadas: Refletir desinteresse, subestimar preocupações, apresentar opiniões/julgamentos, proteger/agir paternalmente, comentar sobre a pessoa com outros, encontrar a pessoa fora do CVV sem aprovação, discutir problemas próprios, dar informações à polícia/imprensa, dar/emprestar dinheiro/comida/abrigo, apressar, tornar-se ausente.
O Ciclo da Vida e a Vida Plena
O manual apresenta um modelo para entender o funcionamento interno das pessoas e o processo de autoconhecimento.
- Ciclo da Vida: A sequência de manifestação das funções Emocional, Intelectual e Motora. Sentimentos são percebidos rapidamente, seguidos pelos impulsos de agir, e depois pensamentos e ideias. Agir antes de pensar indica estados defensivos.
- Vida Plena: “Viver plenamente é aprender a vivenciar as três fases do ciclo da vida com fluidez, isto é, sentindo, pensando e agindo com atenção e estando presente.” É um processo que permite identificar estados defensivos ou confiantes.
Tipos de Contato e Temáticas Específicas
O manual descreve diferentes formas como as pessoas procuram o CVV e oferece diretrizes para lidar com temáticas sensíveis.
- Tipos de Contato:Busca de apoio para um amigo: Pessoas preocupadas com alguém que conhecem. A orientação é centrar o diálogo na pessoa que contatou, esclarecer o serviço e encorajar o amigo a procurar o CVV diretamente. O voluntário não interfere na vida de quem não buscou ajuda diretamente.
- Busca de ajuda por ambivalência: A busca de ajuda no CVV sugere que a pessoa não está totalmente segura sobre o suicídio ser a única alternativa. Após o desabafo sem julgamento, a tensão diminui. “A primeira coisa de que ela precisa é alguém que a ouça e se importe com ela; alguém que a leve a sério e escute o que tem a dizer.”
- Silenciosas (mudas): Contatos onde a pessoa não fala/digita. O manual descreve situações onde o simples fato de ouvir uma voz gentil ou saber que alguém está disponível é suficiente para a pessoa. A recomendação é aguardar e avaliar o progresso, oferecendo disponibilidade sem insistência.
- Trotes: Em princípio, o CVV considera todos os chamados como oportunidades de ajuda. Para reduzir “trotes efetivos”, busca-se melhorar a qualidade do atendimento. Em situações drásticas (ameaças de suicídio) classificadas como trote, a orientação é solicitar que a pessoa acione os serviços de emergência (Polícia, Bombeiros, SAMU), que possuem experiência.
- Finalizando um Contato: A maioria encerra o contato quando termina de desabafar. O voluntário deve assegurar que a pessoa saiba dos canais de acesso para procurar novamente. É importante que a pessoa entenda que pode ligar novamente a qualquer momento, sem a necessidade de falar especificamente com o mesmo voluntário.
- Lidando com Contatos Extensos ou que Desejam Bater Papo: Reconhecer a solidão como motivação e oferecer uma conversa breve e centrada na pessoa.
- Alcoolismo e Uso de Drogas: O manual reconhece o alcoolismo como doença e vício com consequências físicas, mentais e sociais. Para o voluntário, cabe acolher a pessoa alcoólica sem preconceitos. O uso de drogas é resultado de uma somatória de fatores. Evitar soluções rápidas ou impor mudanças. É essencial ouvir, aceitar e se interessar, especialmente por aqueles que desejam parar ou por suas famílias.
- Luto e Perda: O sofrimento pela perda está atrelado ao sentimento de ter perdido uma parte de si. A solidão é comum, especialmente entre os idosos em instituições.
- Ajuda com Temática Sexual: A sexualidade é um tabu social. O manual define sexo, gênero, identidade de gênero e orientação sexual, destacando a diversidade e a discriminação que podem levar ao sofrimento e ao suicídio.
- Assexualidade: Falta de atração sexual, com diferentes níveis. Não é medo de sexo ou celibato.
- Preconceito e Risco de Suicídio: A discriminação social em relação à identidade de gênero e orientação sexual pode levar a negação, desajustes e aumentar o risco de suicídio.
- Diversidade e Evolução: A sexualidade humana é complexa e diversa, com noções de “desvio” e padrões variando culturalmente.
- Parafilias e Transtornos: O manual menciona parafilias e transtornos sexuais que podem causar sofrimento ou prejuízo.
- Escatologia Telefônica e Cibersexo: Definidos como excitação e sexo por telefone/internet com parceiro desavisado e sem consentimento. O CVV não presta serviço de sexo e finaliza contatos com essa intencionalidade.
- Contatos Obscenos: Distinguir entre linguagem habitual e agressão. Em caso de agressão, manter a compostura, oferecer ajuda e finalizar calmamente se a pessoa insistir.
- Contatos Eróticos (Exibicionistas, Sedutores): Comunicar os objetivos do serviço e finalizar o contato.
- Diretrizes para Temática Sexual: O autoconhecimento do voluntário é fundamental. Reconhecer os limites da ajuda e do serviço. Aceitar a existência de pessoas que vivenciam a sexualidade de forma desordenada em canais como o CVV. O foco é o pronto-socorro emocional e a prevenção do suicídio, não o sexo por telefone ou o relato de atos sexuais. Permitir narrativas detalhadas do ato é desserviço.
- Situações Drásticas (Tentativas de Suicídio em Andamento):Solicitação de companhia: Confirmar se a pessoa deseja socorro sem insistência. Se não, centrar-se nela.
- Solicitação de socorro (pela própria pessoa): Orientar a acionar serviço de emergência (Bombeiros, Polícia, SAMU).
- Solicitação de socorro (por terceiros): Orientar quem liga a pedir apoio à polícia, pronto-socorro ou Bombeiros.
- Personalidade “Sociopática”: O manual descreve características como inconfiabilidade, mentira patológica, agressividade, inocência fingida, baixa capacidade de aprender, comportamento sexual divergente, vício, instabilidade profissional e comportamento autodestrutivo. Indivíduos com essa personalidade podem usar ameaças de suicídio para manipular. A atitude recomendada é neutralidade e firmeza.
Princípios e Filosofia do CVV
O manual reitera os princípios que norteiam o trabalho voluntário e a visão sobre a natureza humana.
- Princípios Fundamentais: Liberdade de tomar decisões (inclusive a de suicídio), anonimato e sigilo.
- Disponibilidade: Integral para quem está propenso ao suicídio e com restrições para outras situações se comprometerem o objetivo primordial.
- Não Interferência: Os voluntários não interferem na vida de quem não pediu ajuda diretamente, mas oferecem apoio e esclarecimentos a quem está preocupado.
- Confiança na Pessoa Humana: O CVV opera com a visão de que, em um clima psicológico adequado, indivíduos e grupos são “dignos de confiança, criativos, automotivados, poderosos, construtivos e capazes de realizar potencialidades jamais imaginadas”.
Em resumo, o manual do CVV enfatiza a importância da escuta empática, do não julgamento, do sigilo e da confidencialidade no apoio a pessoas em sofrimento emocional e em risco de suicídio. Ele fornece orientações práticas para lidar com diversas situações, destacando a necessidade de autoconhecimento por parte do voluntário e a crença fundamental na capacidade humana de autodesenvolvimento.