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- 03-05-2025
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Lígia Gonçalves Diniz aborda a atração masculina pela viagem, ou pela capacidade de “largar tudo e sumir”, como um tema recorrente e significativo na cultura e na literatura ocidentais, contrastando-o fortemente com a experiência e as expectativas femininas1,2 . Ela discute essa atração sob várias óticas, explorando suas raízes históricas, manifestações na ficção e na vida real, e as implicações de gênero dessa diferença3, 4.
A Experiência Masculina da Partida/Aventura:
A ideia da partida masculina é introduzida pela autora como um desejo de fuga e de recomeço, frequentemente associado a uma insatisfação com a vida previsível ou cotidiana . Citando uma canção de Lhasa e Stuart A. Staples, a autora identifica essa ânsia como uma busca por se livrar de um futuro que causa “desespero” .
Historicamente, essa atração é personificada por figuras épicas como Odisseu, que parte para a guerra e a aventura, estabelecendo um modelo cultural antigo em que a partida e a exploração são papéis masculinos
. A guerra, em particular, é apresentada como uma via de escape do comum, oferecendo uma “completude da experiência” que a vida cotidiana não proporciona a “homens comuns” como o general Ulysses S. Grant. Esse “desespero atávico pelo movimento” é reconhecido como algo que a autora se questiona como as mulheres sofreriam, dada a diferença de oportunidades e expectativas
.
Na ficção, a atração masculina pela partida se manifesta de diversas formas:
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A busca por intensidade e uma existência diferente: Personagens como Emilio Gauna, de Adolfo Bioy Casares, anseiam por uma existência “mais perigosa” e “mais intensa” do que a vida comum, vendo o amor ou o relacionamento como um obstáculo a essa busca
. Essa é apresentada como uma “constante da ficção”, onde homens desejam se livrar da mulher amada para perseguir a aventura
.
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A celebração da vida na estrada: O clássico “On the Road” de Jack Kerouac é citado como um exemplo que celebra a vida em movimento, muitas vezes impulsionada por separações traumáticas e o desejo de escapar de uma sensação de que “tudo estava morto”
.
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O abraço da melancolia e a busca por isolamento: Filósofos como Søren Kierkegaard são apresentados como exemplos reais que escolheram o isolamento e a dedicação intelectual (escrever) em detrimento da vida familiar e da felicidade convencional
. Seu alter ego ficcional, o sedutor Johannes, busca escapar do “tédio de viver” através da manipulação e abandono. A melancolia, associada aos homens que se destacaram na filosofia, política, poesia ou arte desde a Antiguidade, parece ligada a essa busca por algo “além” da vida comum, mesmo que isso signifique infelicidade convencional
.
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O uso da experiência extrema na sedução: O narrador de António Lobo Antunes em Os cus de Judas utiliza suas experiências na guerra, o sofrimento, a solidão e a melancolia resultante (“avidez triste e cínica”) como ferramentas de sedução, destacando como a guerra é tradicionalmente uma experiência masculina exclusiva e como essa experiência molda uma nova forma de masculinidade atormentada e atraente
.
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A espera por um destino extraordinário: John Marcher, em “A fera na selva” de Henry James, vive com a convicção de que está sendo “poupado para algo raro e estranho”, aguardando uma aventura ou acontecimento que o distinga, o que a autora interpreta como um tipo de idiossincrasia masculina que o torna fascinante apesar de sua passividade
.
A autora reflete se essa atração pela partida é uma “obrigação herdada” ou se alguns homens sofrem por querer ficar em casa, mas se sentirem “menos viris por essa inclinação tão doméstica”
. Ela também associa essa “energia” masculina, em parte, à testosterona, discutindo seus efeitos fisiológicos (redução da empatia, aumento da confiança e impulsividade, propensão ao risco). Contudo, citando Robert Sapolsky, ela ressalta que a agressividade aumentada pela testosterona frequentemente ocorre em contextos de desafio onde a sociedade espera uma resposta violenta, e que o problema real está na frequência com que a agressividade é recompensada e associada à virilidade em um dado contexto sociocultural. A autora expressa uma mistura de “fascínio e inveja” por essa aparente liberdade e agência masculina
.
A Experiência Feminina em Contraste:
Em contraste, a experiência feminina da partida ou da busca por aventura é historicamente limitada e marcada por responsabilidades e culpa
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O papel da espera: A figura de Penélope, que permanece fiel em casa enquanto Odisseu viaja e guerreia, simboliza o papel tradicionalmente atribuído às mulheres de manter o lar e a família
. A autora observa que a partida masculina é um dado cultural antigo, enquanto a permanência feminina é igualmente arraigada .
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Limitações e preocupações práticas: Embora as mulheres também sintam uma “ânsia de ir embora” (“Urge for Going”), essa vontade é frequentemente romantizada, mas restringida por preocupações práticas e de segurança (“escolha o assento junto ao corredor, que é mais seguro”)
. A autora questiona se as mulheres “nem tivessem a chance de sentir a angústia mais profunda desse impasse”, pois antes de tudo precisam se preocupar com a sobrevivência e a segurança
.
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Culpa e Responsabilidade: Quando personagens femininas na ficção tentam “largar tudo”, como Lenu na tetralogia de Elena Ferrante ou a protagonista de “A filha perdida”, elas enfrentam a culpa avassaladora em relação aos filhos e à família, o que muitas vezes impede que a aventura seja bem-sucedida ou plena
. A autora sente uma “culpa difusa” e a certeza de que ela mesma não abandonaria filhas hipotéticas, vivendo “soterrada por um emaranhado confuso de desejos” e uma “sensação herdada de imobilidade”
.
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Representação na ficção masculina: Em narrativas de aventura protagonizadas por homens, as mulheres são frequentemente retratadas de forma periférica, negativa (como Marylou em “On the Road”, descrita como “boba”, “piranha” ou “histérica”) ou simplesmente como aquelas que ficam e são abandonadas (como Camille)
.
Implicações da Diferença:
A autora argumenta que essa diferença na capacidade e na representação da partida e da aventura reflete e reforça desigualdades de gênero. O privilégio masculino de buscar a experiência intensa e a liberdade de movimento sem o mesmo peso da culpa ou das expectativas sociais contrasta com as limitações impostas às mulheres
.
A leitura de ficções escritas por homens, que frequentemente exploram essa atração pela partida, gera na autora uma “meia identificação esquisita” e um sentimento de “fascínio e inveja”
. Ela reconhece que essa literatura a fez “querer o privilégio da raiva que eles próprios experimentam”, e, por extensão, a agência e a liberdade de ação que essa raiva pode impulsionar. Ela reivindica o direito de as mulheres expressarem sua fúria, inclusive por “motivos bobos” ou “mesquinhos”, um tipo de expressão que foi historicamente negado a elas e associado a “histeria ou tensão pré-menstrual”, em contraste com a raiva masculina frequentemente retratada como nobre ou justificável (como a de Pierre ou Aquiles). Essa reivindicação pela raiva pode ser vista como uma metáfora para a reivindicação de agência e da liberdade de ação de forma mais ampla, incluindo a de “sair da ficção, dar a cara a tapa e correr perigo”
.
No entanto, a autora também questiona a idealização da partida masculina. Ela aponta que essa busca pode levar a vidas atormentadas, solitárias e, por vezes, a gestos destrutivos ou superficiais
. Personagens como Paulo Honório, atormentado por sua brutalidade e solidão, ou o narrador de Lobo Antunes, que usa seu trauma de guerra para seduzir, mostram o lado sombrio dessa masculinidade forjada na dureza e na partida. A leitura dessas histórias permite à autora “enxergar esses homens por dentro, sem correr o risco de sermos abandonadas enquanto eles curtem a vida por aí”
.
Em última análise, a autora não se limita a constatar a diferença, mas expressa um desejo por um futuro em que essa capacidade de partir, de buscar a aventura e a intensidade, não seja um privilégio de gênero
. Ela vislumbra a possibilidade de “aventuras compartilhadas” (“eu quero é ir-me embora, eu quero é dar o fora” e completando: “e quero que você venha comigo”) ou, alternativamente, de reivindicar essa agência em sua própria voz (“eu mesma ‘quero tocar fogo neste apartamento’”). A reflexão da autora é profundamente pessoal, permeada por sua própria “meia identificação esquisita” com esses personagens masculinos e seu desejo por uma liberdade de movimento e expressão historicamente mais associada a eles.
Penélope é a personificação de uma característica há muito e ainda identificada às mulheres: o apego ao lar. É outra forma, mais dura e complexa, de enxergar a domesticidade. Ir embora é coisa de homem, seja no plano concreto ou no domínio dos anseios. Da Grécia antiga para cá muita água rolou, e não é mais tão simples assim dar no pé para viver duas décadas em terras distantes enquanto a mulher cuida da casa e dos filhos. Mas a pulguinha do “e se?” marca posição em uma tonelada de histórias modernas e contemporâneas escritas por homens, do sertanejo brasileiro ao rock anglófono, passando por muitos e muitos poemas e romances de tudo quanto é lugar. ↩︎
A verdadeira história da humanidade
Eu gostaria muitíssimo de compreender a medida de quanto os séculos e milênios de guerra deixaram impressa geneticamente nos homens, até hoje, essa comichão do desbravar ou destruir outras terras, enquanto às mulheres restam o lar e o útero, emblemas da imobilidade. E, se essa hipótese cientificamente absurda tivesse algo de real, eu talvez trocasse a paz da minha confortável vida de classe média pela possibilidade de ser de repente alistada para lutar uma guerra qualquer.
LGD: o homem não existe ↩︎
Um de seus biógrafos, William McFeely, escreveu que a guerra foi para Grant a única fuga do comum disponível para homens comuns como ele.20 O autor afirma que, para alguns destes, a guerra significava algo ainda maior, uma espécie de realização que o mundo não ofereceria de nenhum outro jeito. Só na guerra, escreveu McFeely, Grant “encontrou a completude da experiência”.
Tudo bem, esse é um caso radical, e talvez nome seja mesmo destino. Como, porém, será sofrer esse desespero atávico pelo movimento? Voltemos à nossa vida e ao meu gênero. Quem é a garota que nunca romantizou botar o pé na estrada, com uma mochila nas costas, sem saber onde ia parar? Aí escutamos o conselho: “Quando pegar ônibus, escolha o assento junto ao corredor, que é mais seguro”, e nos damos conta de que as coisas não são tão simples assim. ↩︎
É fascinante, portanto, penetrar o que sentem os homens ao girar a chave do carro e pisar até duzentos por hora, ou subir no ônibus, sem culpa e sem medo de se sentar à janela. Ou ainda o que sentem aqueles atormentados por esse desejo sem nunca efetivamente tomar a coragem de partir. Ou seria apenas uma obrigação herdada essa, a de partir? E talvez tantos deles sofram mesmo é porque querem ficar no conforto de casa mas se sentem menos viris por essa inclinação tão doméstica? “Escute, garota, será a estrada uma prisão? Eu acho que sim, você finge que não”, cantava Humberto Gessinger no hit de 1987 dos Engenheiro do Hawaii, “Infinita highway”. ↩︎